sábado, 20 de junho de 2009

A primeira Fazenda

Conforme combinado ao telefone, a Ursula nos buscou na estação de Elne, uma cidadezinha próxima a Perpignan. Era umas quatros da tarde e, durante os minutos que passamos esperando, nos perguntamos se estávamos no lugar certo, ainda não haviamos visto uma estação de trem tão minúscula na nossa viagem. A sensação era de deserto total, ausência de vida humana ao redor. Nem nos atrevemos andar pelos arredores, achávamos que só veríamos estrada.
Chegamos com aquelas nossas malas obcenas e eu tentei até fazer uma piada, mas era irreparável. No carro com a Ursula, rumo à Ferme Musicale, conversávamos pouco mas o clima era bem simpático. Olhamos pela janela. Nos vimos em um lugar completamente desconhecido, cheio de árvores e plantações - entre as quais passaríamos as próximas três semanas trabalhando. 
Assim que chegamos vimos uma casa bem simpática, instrumentos de percussão e cabaças decorando a varanda e um cachorro preto alegre vindo na nossa direção. Bugie (nem idéia de como se escreve) era o nome da cadela, muito carinhosa. 

Tiramos as malas do carro e não sabíamos para onde ir, mas a Ursula explicou que nós veriamos o nosso quarto depois, porque o seu marido, Vincent, estava descansando naquele momento e faríamos muito barulho dentro da casa se entrássemos no sótão agora. Só depois descobriríamos que de manhã teríamos que andar na ponta do pé, com passadas longas para evitar a madeira do chão do quarto de ranger e fazer um estardalhaço na casa. 
Antes de compreendermos direito a disposição das coisas naquele novo ambiente a anfitriã perguntou, sorridente, se gostaríamos de fazer alguma coisa ou se apenas descansaríamos naquele dia. 
Desorientados, pedimos para ela nos mostrar alguma coisa, já era estranho o suficiente estar parado em um lugar desconhecido. Deixamos as malas no chão de terra mesmo, em frente à casa..  
Nos afastando da casa, ela nos mostrou o banheiro e um pequeno vestiário com chuveiro que utilizaríamos, duas portas brancas de pvc lado a lado em uma construção isolada da casa.

Em menos de 5 minutos após a nossa chegada estávamos naquele lugar nada urbano já estávamos no meio dos pessegueiros tirando um monte de pêssegos ainda verdes dos galhos.
Tudo foi ensinado ali na prática, imitávamos o que ela fazia no início e depois fomos entendendo melhor, transpondo a barreira linguística, que estávamos criando espaço entre os pêssegos, que nasciam muito juntos. Além disso, era necessário retirá-los para que quando eles crescessem não quebrassem os galhos com o peso. Eles iriam dobrar de tamanho ainda. 
Nos primeiros dias não tivemos a menor noção do tamanho do lugar onde estávamos. Era engraçado olhar ao redor e às vezes não lembrar para onde ficava a casa. Não que a fazenda fosse grande - para as dimensões brasileiras, estávamos em um sitiozinho - mas porque estávamos totalmente fora do nosso ambiente. 
Passávamos umas horas fazendo uma atividade em um só lugar, então perdíamos toda a referência de tempo e espaço. Quando voltávamos a expandir o nosso olhar para o contexto em que estávamos inseridos ficávamos desorientados por um breve momento. Quando comparávamos com a nossa rotina no Brasil, era de gargalhar.

sábado, 13 de junho de 2009

Ruínas medievais em plena terça-feira

Tentamos todos acordar e sair cedo para uma pequena viagem a uma cidade medieval chamada Saint Guilhem le Désert, a uns 45 km de Montpellier.
Quando estávamos a caminho do carro do David, eis que surge a casa do Cisco no nosso caminho! Adorei a descoberta, Cisquinho você devia ir lá reclamar propriedade! Marinoca, avisa ao papai que ele tem uma "casa" em Montpellier rsrsrs...
Fomos todos então dando um jeito de cabermos no carro
 para duas pessoas, Guilherme e David na frente e eu e Anaïs atrás - ficou perfeito. Paramos em uma feira em uma área que o David descreveu como o Brooklin de Montpellier comprar pão e outros pertences para o nosso piquenique. Comprei umas cerejas, umas azeitonas, eles compraram um queijo de cabra frescoe um pão fantástico. 
A feira acontece embaixo de um aqueduto antigo e os seus arcos são enormes.
Seguimos viagem, eu e Anaïs rindo atrás, arrumando um cantinho pra deitar no meio das nossas tralhinhas. Música boa tocando no rádio e sem a menor idéia do lugar fantástico aonde estávamos indo - a estrada já estava valendo a pena. 
Para quem gostar do som no video e quiser seguir o estilo da viagem a rádio é de Paris e se chama Nova
Deve dar pra ouvir online. Entre as músicas que ouvimos havia uma ótima que não saiu da minha cabeça o resto do dia "When she wants plenty, she gets plenty..." A combinação música + estrada fez a minha cabeça e deu um sabor de novidade ao momento que a gente estava vivendo.


Quando paramos contrariados em um estacionamento de 4 euros eu saí do carro e vi um rio verde. Verde. Meu primeiro pensamento foi "Nossa, o que fizeram com o rio..." seguido de "Tem anilina. Só pode!" Anaïs e Davis não pareciam surpresos então tentei não fazer muito estardalhaço, afinal, o rio era lindo. Mas eu achava que as águas só tinham essas cores no filme do Senhor dos Anéis na Nova Zelândia. Entrando na cidade fomos a um banheiro que nos levava à época em que as pessoas amarravam o cavalo antes de entrar na taberna. Eram umas portinholas antigas com tranca de ferro, bem rústicas.

Fomos avançando em direção ao centro da cidadezinha toda feita de pedras, madeira e ruas estreitas. Cada ângulo trazia novas texturas.

Muros, arcos, chão, janelinhas, lojas, eu olhava tudo cheia de curiosidade. Espiava dentro de portas, tirava fotos de sacadas baixas com flores - aquele lugar parecia feito só de fachadas, meio cenográfico. 
Mas realmente há gente vivendo dentro daquelas paredes de pedra.
Muitas fotos depois, paramos para um piquenique na praça da cidade (tão pequena, mas um charme!). 
Esse casal é o máximo, comemos tudo de bom naquele baquinho de pedra, do lado de uma árvore. Havia uma fonte ao lado e um café de extorquir turista do outro.
O astral estava lá em cima: cortávamos o pão na pedra mesmo (rs), comíamos queijo de cabra junto, a Anaïs tirou da sua mochila um super tupperware com uma salada de quinoa, pimentão e cenoura.
Comemos muito revezando o garfo. De sobremesa, as cerejas - nos fartamos.
Depois de um café, andamos mais um bocado para chegar perto de umas ruínas, nos distanciando da cidade. Foi um passeio perfeitinho, compacto. 

Visual incrível sem muito esforço. 
No caminho que levava a uma vista boa das ruínas vimos pela primeira vez arbustos de romarin, vulgo alecrim.
Passávamos a mão de leve e o cheiro ficava.
Vimos a cidade lá de cima e em volta um solo bem pedregoso, muitas montanhas pequenas. 
Antes de voltar ao carro descemos para ver o rio verde de perto.
Não consegui me acostumar com aquela cor, mas sentei para admirar. Foi bom parar um pouco e relaxar a mente.
Seguimos viagem,
 agora o nosso destino era o local de escalada que eles frequentavam. 
Paramos o carro em um lugar no meio do nada, só com chão de pedrinhas e mato em volta. Andamos por uma trilha pouco demarcada e na nossa frente surgiu um paredão de pedra muito alto.Eles começaram a tirar o material das mochilas e Guilherme fez a primeira escalada. 
Riu muito lá em cima, tentando escalar, subiu até a metade, mas então finalmente desceu dizendo "É... Acho que isso não é pra mim não, prefiro ficar aqui no chão."
Minha vez. Fui subindo, fazendo do jeito que eu podia e me diverti bastante. Consegui chegar até o final! É um pouco tenso e a sapatilha esmaga o pé, mas a vista de cima é bonita. Depois o casal escalou, revezando para fazer a segurança. O Laurent, primo do David, chegou logo depois e fez uma via difícil. Conversamos sobre viagens e ele contou um pouco sobre o planejamento que ele está cumprindo para em breve viajar durante um tempo grande - não lembro agora se era 1 ano ou se eram 3. O destino principal era a ásia, mas esqueci os detalhes.
Escureceu, então pegamos nossas coisas para voltar. Nos despedimos do Lauren, que foi na frente. Pela trilha, eu e Guilherme ficamos um pouco atrás e o meio daquele breu era fácil se perder, todas as moitas pareciam iguais.
Colocamos tudo no carro, demos uma alongada e de volta para a estrada, com percurso menor dessa vez. Comemos muito bem na casa e fomos dormir.
Nunca vou esquecer essa dia... Foi um passeio calmo e rico.

domingo, 7 de junho de 2009

Despedida de Paris, TGV e os 2 primeiros dias em Montpellier

Nosso último dia em Paris. Acordamos bem cedo e o François nos levou ao metrô. Esse foi o momento mais tenso da viagem porque eu me enrolei com o horário e saí da casa deles sem saber se a minha carteira estava comigo. Um horror! Eu arrastava a mala que nem uma louca pela rua, nervosa porque tínhamos que pegar o metrô, depois trocar de metrô para a Gare de Lyon com as malas megapesadas. Me arrependi de ter trazido tanta coisa. O triste é que eu já sabia que me arrependeria disso.
Uma vez encontrada a carteira - já fora da zona de perigo de perder o TGV -, iniciei mentalmente a primeira de uma série de listas mentais dos itens de viagem realmente imprescindíveis (o que me levaria, semanas depois, à elaboração da primeira mala pequena da minha vida).
Se o François não tivesse nos levado pelo caminho mais rápido até a linha do metrô que precisávamos pegar para chegar à Gare de Lyon não garanto que teríamos chegado a tempo para pegar o TGV. Correria danada, ao François devemos o nosso "merci beaucoup" e esperamos o casal no Rio de Janeiro um dia.
A caminho de Montpellier vimos paisagens lindas pela janela, foi ótimo passar aquelas horas no trem e ter a sensação de estar atravessando a França.Claro que não podia faltar piquenique no trem, ainda mais com o bolo de chocolate da Candy na bolsa de comida que preparamos antes de sair.
Os morros, campos, moinhos iam passando e todas as cores da primavera borravam a janela. Eu sorvia aquelas imagens satisfeita - o deslocamento de trem era um dos espetáculos da viagem que eu aguardava ansiosamente. Um momento relaxante, quase terapêutico. Entrei em uma outra frequência no balanço daquele trem que voava leve sobre os trilhos. Ótima experiência! Ninguém sentou perto da gente, então tivemos muito espaço a viagem inteira e o banheiro era decente. Chegamos uns minutinhos atrasados e descobri, ligando para a Anaïs do orelhão da Gare, que ela iria nos buscar de carro!!! Uma beleza! Com a mala enorme que estávamos foi um grande adianto. As malas foram no carro com o David, namorado da Anaïs, e nós três fomos andando para a casa dela.
Rolou aquele momento euforia enquanto andávamos: eu contava tudo o que havia acontecido em Paris, ela dizia como estava a vida dela desde que ela voltou de viagem do Brasil (depois de ficar conosco lá em casa). 
Passando pela Place de la Comedie (atração turística principal de cidade) estava rolando um jogo de volei de praia feminino no meio de um tempo horrível com frio e chuva... Paramos três segundos e no meio da euforia de estar em um lugar totalmente novo dei uns gritos de torcida porque coincidentemente a partida era BrasilXFrança!
Continuando a caminhada, contamos da sensação de correria que havia ficado dos dias em Paris e dissemos que queríamos ficar em um outro ritmo lá em Montpellier.
A casa da Anaïs é ampla, cheia de charme com uma decoração toda especialmente informal que é a cara dela. A Anaïs tem uma energia muito positiva, é ótima anfitriã e nos deixou completamente à vontade.Depois de comer uma comidinha bem bacana que foi uma grande novidade para mim, tomamos um banho e nos sentimos renovados. Fomos dar um passeio para ver a cidade.
Montpellier é uma cidade universitária com construções antigas muito bonitas. Me lembrou um pouco Ouro Preto aquelas ruelas estreitas com curvas, subidas e descidas. Sentamos para tomar uma cerveja com uns amigos deles em um bar ao ar livre com uma população jovem reinante. Guilherme experimentou hidromel - praticamente um viking!
No dia seguinte, levantamos com calma e fomos dar um passeio com as bicicletas que a Anaïs emprestou para a gente.  Fomos a uma parte da cidade toda diferentona, construídas recentemente, comemos quebab na Place de la Comedie, tomamos uma cherry coke horrível - fiz a promessa de não consumir mais nada que contivesse xarope de cereja. Blé.
No mercado, compramos algumas coisinhas e voltamos. Passamos em um cibercafé e ficamos 2 horas para conseguir postar no blog (é irritante como as fotos podem destruir a leitura do texto aqui! Incrível como perdemos tempo tentando colocar o layout de uma forma mais decente...) Cozinhamos uma massa com abobrinha e champignon, havia mais dois amigos deles para jantar e tivemos um papo misturado com francês, inglês, português e espanhol.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Paredes vazias

Era um sábado e acordamos com calma tomamos café arrumamos as nossas coisas que haviam sido lavadas na máquina.  Algumas peças foram para a secadora, mas é incrível como um simples varal dentro de casa seca as roupas em algumas horas neste clima. A Candy, sempre tão gentil, ajudava a gente a cada etapa, chegou até a estender umas peças depois quando já havíamos saído para o Louvre. Passamos em uma padaria um pouco antes do horário do almoço, compramos 2 sanduíches, 1 schweps de frutas cítricas e 2 sobremesas (1 torta com creme maravilhosa e 1 pão de passas que acabamos não comendo). No amplo pátio do Louvre, sentamos junto ao chafariz da pirâmide e fizemos nosso piquenique. Olhando através do vidro da pirâmide, que estava bem do nosso lado, víamos as pessoas lá embaixo, andando pelo hall interno do Louvre. Dentro de poucos minutos estariamos lá dentro, procurando o pavilhão que correspondia ao início do roteiro dos pontos mais importantes que eu havia xerocado de uma das minhas revistas de viagem. Compramos os tickets de entrada, que eram apresentados na entrada dos pavilhões. Depois de subir e descer poucos lances já não tinha a menor noção de onde estava, mesmo olhando para o outro mapa que peguei na entrada. Tentei entender os diversos níveis de um mesmo pavilhão que mostrava o mapa, então, quando pensei estar localizada, fui confirmar com um funcionário e me descobri perdida. O Japa tomou a frente e passou o dia me guiando pelas salas. Arrumei um personal-Louvre-guide! Guilherme sabia direitinho para onde ir e depois de ver as obras olhava pra ele e dizia toda satisfeita "Pra onde agora?! Obaaa!" Cada sala que entrávamos era impressionante pela arquitetura, o pé direito alto, sancas, paredes trabalhadas, até verdadeiras obras de arte no teto. Já havia ouvido falar da dimensão do museu, que seria impossível ver tudo em um só dia, mas que o teto e as paredes tomariam o meu tempo lá dentro eu não sabia. Era certo que não pretendíamos ver tudo, já estávamos com o planejamento fechado e não sentimos a menor necessidade de sair do tal roteiro, que, aliado ao mapa que pegamos lá dentro, descrevia uma visita maravilhosa, com diversas obras famosas. Novamente minha nuvem negra do azar se manifestou. Pelo menos uns 4 quadros famosos haviam sido retirado para manutenção ou pesquisa, não sei bem. O fato é que a cada momento que chegávamos à sala em que o quadro estaria encontrávamos a parede vazia, o nome do quadro embaixo e um aviso ao lado dizendo que ele havia sido retirado por algum motivo. Andávamos quilômetros para chegar até o quadro e nada. Era irritante. Acabamos saindo do Louvre decepcionados. Mas nos divertimos.  Tiramos foto da multidão que foi ver a Mona Lisa - o tanto de gente acaba virando o espetáculo principal e o quadrinho pequenino da La Gioconda fica meio ofuscado de frente para a folia exuberante de flashes. Esse é o metro quadrado mais deselegante de Paris, as pessoas ficam sideradas para arrumar um espaço lá na frente. Mas, no fim, acho que aqueles que tem um pouquinho de determinação conseguem chegar de frente para a obra depois de esperar uns cinco minutinhos pacientemente em uma espécie de fila onde se deve ficar esperto para qualquer brecha surgida.
Muitos quadros e esculturas depois estávamos com dor nos pés e pernas."Vamos embora?" o Japa falou. Desde o princípio da viagem tinhamos um acordo silencioso de não forçar nenhuma barra para "aproveitar a viagem", afinal, lazer é pra ser feito relaxando... Bom, nem sempre era possível, eu reconheço que fiquei extremamente ansiosa em Paris, mas, enfim, a essa altura nossa estada já começava a tomar uma forma de viagem e por isso os ânimos estavam mais calmos.
Mas quando pensávamos que íamos embora começamos a ver a parte do Egito. Não foi uma coisa muito programada, tudo ia surgindo à nossa frente e a gente ia sempre em frente, que nem gado. Esculturas de farós, múmias, sarcófagos e eu, impressionada mas exausta, tirava 3 fotos a cada 5 metros. No meu íntimo, a estratégia era tirar fotos para ver todo aquele espetáculo depois, sentada na frente do computador, porque àquela altura a minha mente não conseguia mais processar tantas imagens, tantas informações... Penso que acabamos saindo umas 2 horas depois.
À noite, mais um jantar memorável - a Candy havia feito crepes. Eles tinham uma pequena chapa que eles colocaram ao lado da mesa e o jantar funcionava da seguinte forma: cada um pegava a sua massa de crepe e escolhia o que iria colocar dentro, depois dobrava e colocava em cima da chapa. Em dois minutinhos já estava comendo o crepe. Comemos muito queijo de cabra, gruyère, abobrinha grelhada, champignon, humm... Depois vieram os crepes doces e eu me refastelei de crepe de nutella, rs. Deixamos tudo pronto para a viagem na manhà seguinte, eu estava muito animada para andar de TGV, rumo a Montpellier!
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